Nunca entendeste a minha angústia. assim como eu nunca entendi a tua.
a nossa incapacidade de amar, de viver, de saber viver, de partilhar a tua e a minha angústia. a minha incapacidade de me ouvir, de me compreender, de me valorizar, de partilhar a minha angústia. a minha incapacidade de saber viver. a minha necessidade de partilha de angústia. a minha incapacidade de ser feliz. de saber discernir. de saber. de saber. a minha necessidade patética de me humanizar. -o que é que ela quereria dizer com aquilo?- só poderia ser uma a escrever. os homens, ao contrário do que as mulheres dizem, são mais práticos. mais pragmáticos. quem será que inventa todos estes clichés? e as uvas ou será o milho? -as uvas e o milho por apanhar. por ceifar. bando de burgueses mal amanhados. tivessem eles outra oportunidade. tivesse eu...-começa rapariga. esquece os pretextos e os contextos e até os textos. quem te pediu opinião de qualquer maneira. a minha incapacidade de reconhecer e aceitar que sou tão comum e sendo tão comum de comum tenho tão pouco. a incapacidade de decisões. de aceitar a vida e o seu rumo. o rumo natural das coisas. nasce-se. cresce-se. envelhece-se. morre-se. -ela andava estável. porque raio se teria a menina alheado da sua condição. aceitar. ACEITAR A VIDA COMO ELA É. aceitar-se a si. parar de se boicotar. arregaçar as mangas e pisar as uvas.
-não olhe para mim. não saberá que o vou tentar impressionar? talvez até consiga. mas conseguirá você impressionar-me? só compreendendo a minha angústia. aquela que é capaz de ser dizível de tão rasteirinha que é. mas que você não conseguirá compreender.
desculpe ter-lhe falado assim. não era minha intenção. desculpe-me só mais desta vez e da próxima. que lhe quero demasiado bem. viverei longe para o não apoquentar. mas se longe tão perdida -mais perdida ainda?, -não sei.- me sinto.
porque o impediu de crescer? -um bonsai?!- e quem lhe disse isso. terá ele enviado sinais de que não queria crescer mais. fez birra e beicinho. -não acredito. cortou-lhe as asas. ainda era demasiado pequeno e não aprendeu a nadar. afinal era um peixe e cortou-lhe as barbatanas e obrigou-o a viver fora de água. foi por isso que não cresceu. -não faz sentido o que digo? e que sentido fez que o impedisse de crescer? e à excepção dos dotados da capacidade de não pensarem, já alguém descobriu ou encontrou ou sabe o sentido destas cenas. das cenas que uma pessoa pensa e sente e pensa que sente. que eu ouvi dizer que se passa tudo na cabeça. lá dentro. uma série de circuitos electroquímicos. e no seu bonsai? não invente. apenas acredito na verdade e essa você não sabe ou não está com disposição de ma contar. e também não me serve para nada. deixe-me aqui sozinha com o seu bonsai. decerto que ele entenderá a minha angústia. aquela que às vezes é dizível mas que eu nunca soube dizer. e sempre me repeti. e por não fazer entendê-la, chamei-a de indizível.
